Continuidade da cantina solidária, parte 3 – farewell

Decidimos que o último dia da cantina solidária do RDA, que iniciámos em março quando foi decretada a situação de pandemia, será no dia 6 de setembro.

Foram cerca de 6 meses, quase 25.000 refeições (uma média de 200 diárias), possíveis pelos mais de € 26.000 de donativos recebidos de mãos amigas e desconhecidas, as ofertas de produtos alimentares por espaços e colectivos solidários com a cantina e, claro, a força de trabalho gratuita de algumas dezenas de pessoas.

A todas elas o nosso mais sincero obrigado. Este tipo de ajuda não se explica simplesmente por uma qualquer afinidade sentimental para com a situação de calamidade e a miséria dos mais desgraçados, antes se evidenciando um entendimento político mais denso e consequente sobre a necessidade de novas formas de apoio mútuo que não obedeçam às lógicas perversas das várias instituições de apoio estatal ou caridade particular.

Ao longo destes seis meses fomos criando relações pessoais e ensaiando dinâmicas colectivas com todos os envolvidos, os que participaram da cantina cozinhando e comendo, e os que usaram o espaço do RDA para lavar a sua roupa, tomar banho, carregar o telemóvel ou simplesmente beber água.

Nunca pensámos em março, quando tudo isto começou, que a cantina solidária se tornaria no que é hoje mas parece-nos agora certo que é por aqui, por esta força colectiva e autónoma que vimos crescer neste meio ano de actividade, que queremos desenhar o nosso futuro.

Não será neste formato até porque o dinheiro que nos foi chegando para financiar a cantina está a acabar e nos vemos já há algumas semanas nos limites da nossa disponibilidade emocional e de tempo para continuar a assegurar a actividade, agora que acabam as férias e os sucessivos estados de calamidade decretados, e o regresso à normalidade e ao trabalho nos são impostos.

A actividade da cantina solidária criada em março caminha assim para o seu final mas estamos convencidos de que no essencial as razões que nos levaram a iniciá-la se mantêm e que tudo o que aprendemos e ganhámos com ela constitui uma força que queremos cuidar e fazer crescer.

A cantina solidária baseou-se numa ideia de autonomia e solidariedade não mediadas por qualquer instância estatal nem por nenhuma troca material e financeira: aquilo a que eventualmente chamámos de desmonetarização e destatização do apoio mútuo. Nunca olhámos para esta cantina como uma forma bacoca de caridade para com os mais desfavorecidos, mas sim como uma maneira de desenhar e criar novas formas-de-vida que tentam contrariar as lógicas que nos vão sendo impostas no dia-a-dia.

Fruto desta experiência que considerámos positiva a todos níveis, é da nossa vontade aproveitar as próximas semanas para pensar e discutir com todos os que estiverem interessados um projecto mutualista que nos permita criar as infraestruturas necessárias a desenvolver uma actividade autónoma de cantina gratuita e a responder a algumas das necessidades básicas com que todos nos confrontamos.

P.S. Faltam-nos cerca de 500 euros para podermos levar a actividade da cantina solidária até dia 6 e por isso vos pedimos, pela última vez para este efeito, que nos ajudem com dinheiro (NIB: PT50 0035 0100 0003 1497 5304 1) ou géneros alimentares.

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